A noite é cega
e o que fica é o vento que se vê no topo das árvores
manso olhar que repousa num chão inseguro
numa eterna morte
constante, serena, em vagas como o mar.
Amanhece
e nada é sabido
apenas o som do instrumento que tocas
repetidamente
num silêncio que te envolve
que te acolhe como mais nada, nem ninguém
acho que estás só, não sei se isso importa: te importa.
É uma vida semi-tomada a que te acompanha
sempre à beira da queda
para o vazio
para o esquecimento.
Talvez desejasses mais, melhor, talvez
mas é este lugar desafinado o que te espera.
À beira de ti, de mim, de nós.
Dos outros.
Não somos deste espaço
voltado a norte, virada a noite - cega.
(25.03.2022)

